No meu post de abertura neste
blog resolvi expor uma série de motivos que me fizeram abrir o blog.
O principal destes motivos foi
simplesmente a vontade de parar de discutir “doxa”, “opinião”, “achômetro”, “bom
senso” e SENSO COMUM, passando para um modelo que dá aos conceitos o “status”
de serem pensados e não “achados”. Enfim, buscar a filosofia e não a ciência.
Buscar a profundidade conceitual que a anarquia, que a política, que a economia
e que a liberdade realmente merecem. Para de debater e embater verdadeiramente
conceitos entre si, não para descobrir a verdade (pois esta é a tarefa da
doxa), mas para descobrir problemas, colocar os verdadeiros problemas, saindo
da besteira que é a arte de colocar falsos problemas, falsos obstáculos, que
levam as forças potentes que temos sempre para produzir algo que não queremos,
fazendo escapar nosso desejo de nós, estranhando-nos de nós mesmos. Era
precisamente isto que tais debates estavam fazendo comigo e foi precisamente
por isso que parei de debater.
Pois bem, este novo post é
praticamente uma continuação do anterior. Aqui eu tenciono expor (de maneira
enumerativa e não taxativa – ou seja, pode ser que existam mais coisas do que
as que irei listar), o modo como eu vou trabalhar o pensamento dos outros
autores e o meu próprio, o rigor que o pensamento deve ser tratado no meu modo
de ver.
Antes de começar, um pequeno
aviso: estou colocando estes pontos, mas pretendo sempre remeter-me a eles
quando estiver usando cada um deles. Bom dizer que, como não é um processo
taxativo, também não é um processo ordenado, nem, muito menos, esta separação
que fiz aqui é real, ela é meramente apresentativo-expositiva, organizei assim
para facilitar a exposição. O ponto “um” não se separa de nenhum outro, nenhum
ponto se separa de outro, muito menos algum tem um tipo de privilégio sobre os
demais. Simplesmente todos estão relacionados com todos ao mesmo tempo e é
impossível explicar este método de forma completa – muito porque ele sempre
está se atualizando em mim, não nos pontos “grandes” mas em pequenos detalhes e formas de compreender
certas sutilezas que estão contidas nele.
O primeiro ponto é não confundir
a vida pessoal de alguém com a obra. Não podemos achar que um assassino não
pode ser um ótimo literato, ou que um ótimo sociólogo nunca poderá ser um
grande misantropo. A vida pessoal e a vida intelectual não só não podem, como
quase nunca são, uma só e mesma coisa. Provavelmente, muitos dos que eu admiro
por terem escrito certas coisas, seriam uma péssima companhia para conversar em
uma tarde; outros tantos que não suporto ler duas linhas, tenho quase certeza,
dariam ótimos amigos de longos anos.
(Existe, porém, uma exceção ao
ponto um: que tal pessoa realmente tenha feito a confusão, defenda a confusão.
A alguém que defende na sua obra uma vida monogâmica, não se pode exigir outra
coisa que uma vida monogâmica. Se o sujeito tem uma mulher “oficial” e diversas
amantes “por debaixo dos panos”, sua teoria não faz sentido algum para ele
mesmo. Este é o ponto.)
O segundo ponto é não entender a obra de um autor como uma coisa só. Esta parte é praticamente um desdobramento da primeira. A obra de um autor não precisa ter coerência, ainda que ele queira que tenha coerência. Sendo mais claro: existem autores (em diversos ramos do saber) que se posicionam incialmente a respeito de um tema “x” da forma “1” e depois, a respeito do mesmo tema “x”, mudam para uma forma “-1”. O fato do autor ter mudado a forma de entender o tema, não quer dizer que o leitor necessariamente também precise mudar sua forma de entender o tema. Um exemplo clássico disso é o do filósofo austríaco Wittgenstein, onde ele revê sua opinião de modo antagônico a respeito da linguagem num dado momento de sua vida e, até hoje, existem defensores de cada um dos pontos se embatendo nos muros das universidades.
O segundo ponto é não entender a obra de um autor como uma coisa só. Esta parte é praticamente um desdobramento da primeira. A obra de um autor não precisa ter coerência, ainda que ele queira que tenha coerência. Sendo mais claro: existem autores (em diversos ramos do saber) que se posicionam incialmente a respeito de um tema “x” da forma “1” e depois, a respeito do mesmo tema “x”, mudam para uma forma “-1”. O fato do autor ter mudado a forma de entender o tema, não quer dizer que o leitor necessariamente também precise mudar sua forma de entender o tema. Um exemplo clássico disso é o do filósofo austríaco Wittgenstein, onde ele revê sua opinião de modo antagônico a respeito da linguagem num dado momento de sua vida e, até hoje, existem defensores de cada um dos pontos se embatendo nos muros das universidades.
O terceiro ponto, que também está
contido nos dois anteriores, é entender que aceitar o posicionamento de um
autor sobre um determinado tema, não quer dizer que você precisa aceitar o
posicionamento dele sobre todos os temas. Na verdade, a uma pessoa que se
pretenda um pensador, deve sempre fazer isso, nunca concordar completamente com
alguém, inclusive consigo mesmo. Sempre que um texto seu foi publicado, deve
haver ali alguma coisa que lhe inquiete a tal ponto de você querer dizer de uma
forma melhor, acrescentar ou retirar algo. Este ponto, por exemplo, é o que eu
chamo de ter uma relação complexa com os textos que você lê, é dá ao seu objeto
de estudo um tratamento verdadeiramente complexo, como ele merece ser tratado,
é sair do reino da “doxa” e da busca pelas “verdades” ou pelas “mentiras”, que
são blocos de concordâncias ou discordâncias totais.
O quarto ponto é encontrar a
sutil diferença entre não repetir tudo o que foi dito por um autor sobre um algo
tema e, ao modificar ali, não apunhalar o autor pelas costas. Apunhalar pelas
costas é dizer precisamente algo que alguém não disse. É lícito criar interpretações
e hipóteses de leitura, aliás, só se lê fazendo isso, ainda o mais rigoroso
exegeta, aquele que tenda apenas ser um mediador entre o que lê e quem o lê,
não consegue fazer tal tarefa com uma precisão de cem por cento. Nem, de fato,
a pessoa que escreveu o texto consegue transportar de seu “aparelho intelectual”
(digamos assim) aos signos de linguagem algo totalmente transparente, sempre
escapa a nós (que escrevemos) algo que queremos dizer mas não conseguimos
traduzir em linguagem, em palavras. Portanto, precisamente sequer quem fez o
texto pode se interpretar, mas a diferença entre isso e interpretar
distorcidamente de propósito é longa – a isto digo ser “desonestidade
intelectual” (coisa que nossos amigos dos fóruns das redes sociais estão
cheios).
Quinto ponto, que decorre do
quarto. Quando pensamos, quando estamos dando ao conceito o rigor e o
tratamento complexo que ele merece, estamos elaborando hipóteses
interpretativas sobre algo. E hipóteses interpretativas são justamente
questões, elaboração de questões. Este é o ponto que me interessa aqui:
elaborar questões, fuzilar os temas a que me proponho pensar de questões. A
resposta a tais questões, ou melhor AS RESPOSTAS, não são taxativas, não estão
no mundo do certo e do errado, elas apenas funcionam ou não funcionam. A minha
tarefa, ao pensar este assunto, é colocar as questões verossímeis, certas e
rechaçar as falsas questões, inverossímeis. Portanto, elaborar hipóteses para
interpretar um tema não é dar ao tema um tratamento fechado, mas um tratamento
aberto, sempre esperando que a prática da vida mostre saídas possíveis e saídas
falhas.
É possível pensar em dois tipos
de hipóteses. Em hipóteses propositais ou intencionais e em hipóteses
circunstanciais ou acidentais. Hipóteses propositais é o que vou fazer, ou
seja, eu quero mesmo fazer hipóteses, não quero ser um mero exegeta, uma pessoa
que tenta expor o que já está dito, apenas de uma forma mais acessível ao
leitor menos habilidoso ou mais preguiçoso – como queiram. Hipóteses acidentais
são aqueles onde quem as faz não quer fazer, apenas quer tornar o texto mais
claro para outra pessoa, quer apenas competir com outros interpretes exegetas
sobre quem consegue ser mais claro a respeito daquele texto. É a precisa tarefa
dos “lanterninhas” dos cinemas nos anos 50. A este papel eu não quero me
prestar. Quem faz hipótese sem saber, nunca sabe que está fazendo hipóteses e,
portanto, correm o sério risco de legitimar teorias que desconhecem. Quando
fazemos hipóteses sabendo que as fazemos, vemos melhor, mas claramente, o
contexto onde estamos situados, a quem e o que defendemos. Esta é a grande
diferença e a grande legitimação para que eu use esta metodologia de leitura
teórica como arsenal de suporte para pensar as coisas com a complexidade que
elas merecem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário