Nesse primeiro post do blog eu
gostaria de falar sobre coisas mais amenas, menos densas do que será o de
costume.
Primeiro: agradecer à Jéssica
pela idéia de criar o blog.
Segundo: dizer para todos os que
estão lendo isso o que eu disse para ela em um primeiro momento, quando disse
que não iria criar o blog (e eu não retiro uma vírgula do que disse):
certamente, nos primeiros dias, no primeiro mês, eu irei postar muito, depois
isso vai escassear até que vou baixar a nada de posts. Portanto, conto com a
colaboração de vocês me cobrando para que poste (inclusive, se quiserem, com
sugestão de temas a comentar). A menos que não gostem e não queira que eu siga.
Eu preciso dessa cobrança, caso contrário relaxo.
Terceiro: o motivo que me fez
retroceder no que eu disse à Jéssica. Bom, eu estava envolvido em debates a
respeito de anarquia em redes sociais há muito tempo, creio que desde 2006,
ainda no “finado” orkut (se você procurar a comunidade anarquismo irá ver
muitos comentários meus, muitos, inclusive, falando coisas com as quais eu nem
concordo mais hoje, pois ao longo destes quase 10 anos minha visão política
mudou muito em torno de pensar a anarquia). Depois do orkut, passei para o
facebook, embora não tenha mais de um ano que estou envolvido nestes grupos. Ao
mesmo tempo, em minha vida pessoal, sou um estudante de filosofia que não
consegue separar vida de estudo. Ou seja, minhas leituras em filosofia estão em
consonância com as coisas que vivo, com as coisas que concordo, os filósofos
que leio dizem algo para a minha vida, para o meu pensamento político e,
obviamente, ajudaram a formular o que hoje penso sobre anarquia. Um desses,
diria que a maior influência, filósofo é Gilles Deleuze (para mim ele é o
príncipe da anarquia, embora se um desavisado for ler sua obra jamais
conseguirá encontrar onde e como ele fala de anarquia ali, ele fala de anarquia
o tempo todo, da primeira à última obra, da primeira à última palavra. Deleuze
era um anarquista convicto, talvez por isso mesmo não fosse um anarquista
apologeta em seus livros, sua vida fala mais que qualquer coisa). O que
acontece é que, depois de tanto tempo na luta do rochedo contra a onda do mar,
debatendo verozmente nas redes sociais, eu entendi algo que Deleuze diz muito,
entendi num rompante. Algo, aliás, que já está presente nas obras de Platão, de
Sócrates, porém não, talvez, com tal incisividade. As pessoas estão ali
discutindo “opiniões”, “doxas”, coisas superficiais e sem o devido cuidado, sem
o tratamento respeitoso que o pensamento merece. Cansei de rebaixar-me ao nível
da doxa, por isso preferi me “exilar” em um blog e aqui aprofundar meu pensamento
do jeito que melhor me apraz, longe das picuinhas, longe das polêmicas, resolvi
criar um espaço para o meu pensamento. Cansei dos debates que não levam a lugar
nenhum, de pessoas que querem defender a sua ideologia acima de tudo ou de
pessoas que querem simplesmente ganhar o debate. Isso rebaixa o pensamento,
isso prende a potência de pensar ao mais baixo e vil. Isso castra as forças
criativas, desativa todas as potências boas. E, tenho certeza, fazendo isso
irei encontrar bons afetos, afastar maus afetos. É uma espécie de resistência
nomádica, criação de um espaço vital ao pensamento, longe da besteira, longe do
bom-senso, longe da mesquinhez dos duelos egóicos que apenas querem colocar
suas ideias no topo do pedestal.
Dito isto, não me proponho,
portanto, a criar verdades absolutas e fechadas, justamente por isso, recuso-me a
procurar um debate onde a verdade seja seu objeto. Aqui temos problemas e
problemas podem ser resolvido de “n” maneiras, não há maneiras certas ou
erradas, problemas simplesmente podem ser verdadeiros ou falsos, é justamente
do mundo dos falsos problemas que estou me livrando ao deixar de debater como
nestes últimos 8 anos fiz – e confesso que muito com isso não ganhei, minha
transformação pessoal não veio destes debates, mas de um profundo interesse meu
pela leitura e pelo pensamento, o que sempre aconteceu longe daquele espaço.
A isto chamo nomadizar, tomando
emprestado um conceito de Deleuze. Nomadizar é precisamente desocupar, mas não
como um “fujão medroso” e sim como um ser ativo, criativo e resistente. Não me
interessa a luta pelo poder que estes espaços propõem, em nenhum momento
interessou, eu apenas pensei que fosse possível criar ali um ambiente de debate
de pensamentos, mas não consegui. Pode ser que outra pessoa, com outras
pessoas, possam conseguir tal coisa. Eu não consegui, foram, de fato, maus
encontros. Resta desocupar os lugares, as zonas de poder e criar um espaço
próprio para pensar sem os abismos postos naqueles espaços.
Este não é um blog para debates,
este é um blog para compartilhar inquietações minhas comigo mesmo a respeito da
anarquia. Se querem debates entrem nas redes sociais. Não me importo que
comentem, mas não estou preocupado com “feed-back” com leitores, não estou
preocupado com nada mais que o meu próprio pensamento, a única razão que me
leva a fazer este blog é ter um espaço para problematizar questões anarquistas. Em tempo:
há uma grande diferença entre problematizar e debater. Certamente
muitas outras pessoas podem ter inquietações-problema parecidas com as minhas,
compartilhar isto pode ser algo extremamente positivo, mas não estou preocupado
com pessoas que vêm aqui apenas para retrucar o que falo. Podem comentar à
vontade, mas eu nem vou ler o que falam se forem apenas "retrucações", não vou considerar, não vou me preocupar,
enfim. É justamente disso que estou fugindo, não quero mais debate, talvez
embate seja o nome certo, e é preciso que o sujeito saiba empunhar muito bem a
espada para que esteja a altura de um embate comigo, não dou essa honra a
qualquer um. Aqui o pensamento é o privilegiado, a besteira não tem vez, não se
cria. Que passe longe o bom senso e o senso comum. As coisas precisam ser
tratadas com o respeito e, portanto, com a complexidade que merecem ter. Se não
for assim, o que seria eu além de um pequeno bobo achando que é esperto por
vencer todos os debates? Teríamos mais um pombo enxadrista na internet.
Quarto (e último): este espaço
visa comentar anarquia, mas também a partir de uma visão autonomista do homem,
entendendo auto-gestão como, principalmente, auto-gestão de si mesmo,
auto-gestão de sua própria vida. Com a ajuda do rigor conceitual, com a ajuda
de intercessores interessantes, mas sempre traçando uma fuga estratégica de
coisas que apenas servem para retirar nossas energias finitas e que devem,
portanto, ser usadas para pensar, não parar rixas de debates que levam nada a
lugar nenhum e deixam o pensamento fugir. E também é possível (99,9999%) que eu
coloque vídeos aqui.
próximo tópico: anarquismo e libertarianismo. dá rock?
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